Nem tia, nem inimiga da escola. Sou professora
Publicado: 09 Agosto, 2012 - 09h19
Quem já leu a obra do mestre Paulo Freire “Professora sim, tia não” sabe por que escolhi este título, que parece simplório, inofensivo, mas que está carregado de ideologia que tenta desqualificar a profissão de professor. Senão vejamos.
Não é comum a criança chamar sua médica de tia. Ela não confunde e sabe exatamente o papel que a doutora desempenha, muito embora uma pediatra estabeleça uma relação tão próxima da criança quanto a sua professora.
Como nos primeiros séculos da “colonização” do Brasil a tarefa de ensinar era dos sacerdotes, mesmo depois que eles perderam essa exclusividade – por conta da reforma efetuada pelo Marquês de Pombal –, manteve-se a ideia de que “a educação é um sacerdócio”, e se é sacerdócio, obviamente não é profissão.
Outro equivoco acontece quando o próprio professor afirma que “trabalha por amor”, sendo assim, o salário é as condições de trabalho não importam. O problema é que somente o amor não resolve o problema da educação, e neste sentido levanto o seguinte questionamento: como ser um bom professor sem dinheiro suficiente para ter acesso aos bens culturais?
Com amor mas sem salário digno, o professor não terá como adquirir um computador e ligá-lo a internet, não comprará livros, não assinará jornais e revistas, não irá ao teatro, não viajará para outros estados para participar de eventos como conferências, seminários, congressos etc.
Há uma questão de semântica entre “trabalhar por amor” e “trabalhar com amor”. Esta segunda opção é possível, mas a primeira deve ser questionada sempre.
Há professores que tiram dinheiro do próprio bolso (mesmo ganhando salários aviltantes) para ajudar a manter a escola funcionando, comprando giz, apagador, papel, caderno para os alunos e até lanche. Com certeza esses professores dariam para trabalhar numa secretaria de ação social, ou numa casa de caridade, mas como educadores, tenho dúvidas.
Por fim, como se não bastassem às tentativas de desprofissionalização da profissão de professor, agora tem também os Amigos da Escola. Se eles são os “amigos”, quem serão os inimigos? Será que alguém que trabalha toda sua vida educando em condições adversas e recebendo salários de fome não são os verdadeiros amigos da escola?
Com muita luta estamos nos impondo como profissionais. Basta lembrar que há alguns anos todo mundo podia ser professor: médico dava aula de biologia, engenheiro dava aula de Física e Matemática, advogado dava aula de História etc., e hoje isso não é mais possível, inclusive estes profissionais fazem parte de um quadro à parte dos profissionais do magistério (quadro suplementar em extinção).
Enfim, não sou nem tia, nem inimiga da escola; sou profissional da educação e luto para que esta profissão seja respeitada.