ASSINE: Pela permanência e dignidade do trabalho pastoral do Padre Júlio Lancellotti
Publicado: 20 Dezembro, 2025 - 19h18 | Última modificação: 20 Dezembro, 2025 - 19h49
Escrito por: Revista Fórum e CNDH
A atuação do Padre Julio Lancellotti vai muito além do altar. Há décadas, ele dedica sua vida à defesa da dignidade humana, especialmente das pessoas em situação de rua, levando alimento, escuta, acolhimento e fé a quem mais precisa.
A recente decisão que determinou a suspensão das suas transmissões de missas e atividades nas redes sociais, bem como a possibilidade de seu afastamento da Paróquia São Miguel Arcanjo, onde atua há mais de quatro décadas, causam indignação e tristeza. Tal decisão se torna ainda mais difícil de compreender diante do fato de que outros sacerdotes seguem realizando transmissões e atividades semelhantes, o que reforça a percepção de tratamento desigual.
Respeitamos a autoridade eclesiástica e as normas da Igreja. No entanto, acreditamos que decisões pastorais devem sempre considerar o bem comum, a escuta da comunidade e a relevância do serviço prestado.
Padre Julio sempre atuou com compromisso cristão, respeito à Igreja e profunda coerência com os valores da justiça social, da solidariedade e do cuidado com os pobres. Silenciar essa voz é enfraquecer uma das expressões mais vivas da missão pastoral do país.
Por isso, estamos nos mobilizando para pedir, de forma respeitosa e firme, que a Arquidiocese de São Paulo e Dom Odilo Scherer revejam essa decisão, garantindo a continuidade do trabalho pastoral do Padre Julio Lancellotti, tanto em sua paróquia quanto nos meios de comunicação que ampliam o alcance de sua missão evangelizadora.
A respeito da luta do Padre Júlio Lancellotti, leia abaixo a Nota Pública escrita pelo Conselho Nacional de Direitos Humanos
NOTA CNDH Nº 82/2025
NOTA PÚBLICA DO CONSELHO NACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS EM APOIO AO PADRE JÚLIO LANCELLOTTI E À LIBERDADE DE EXPRESSÃO NA DEFESA DOS DIREITOS HUMANOS
O Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH), órgão colegiado instituído pela Lei nº 12.986, de 02 de junho de 2014, tem por finalidade a promoção e a defesa dos direitos humanos previstos na Constituição Federal, nos tratados e atos internacionais celebrados pela República Federativa do Brasil.
No uso de suas atribuições legais, o CNDH vem a público manifestar seu reconhecimento e apoio ao Padre Júlio Lancellotti, sacerdote com décadas de atuação pastoral e compromisso com a promoção e defesa dos direitos humanos, especialmente das populações mais vulneráveis, notadamente das pessoas em situação de rua na cidade de São Paulo, por meio da Pastoral do Povo da Rua e de diversas iniciativas solidárias que visam à dignidade e à inclusão social.
Padre Lancellotti tornou-se referência nacional por sua dedicação à defesa dos direitos das pessoas em situação de rua, e sua atuação transcende fronteiras religiosas, tornando-se um símbolo de humanização no enfrentamento das desigualdades. Nesse percurso, sua voz tem sido essencial para a incidência em causas sociais frequentemente silenciadas e invisibilizadas.
Reconhecemos também o caráter inovador da Lei nº 14.489/2022, conhecida como Lei Padre Júlio Lancellotti, que proíbe a chamada “arquitetura hostil” (instalação de estruturas e técnicas urbanísticas que têm por objetivo afastar pessoas em situação de vulnerabilidade social de espaços públicos).
Justamente por sua atuação pública, coerente e comprometida com os princípios da justiça social e dos direitos humanos, Padre Júlio tem sido alvo recorrente de perseguições políticas, ataques sistemáticos e tentativas de criminalização de sua ação pastoral. Setores conservadores chegaram, inclusive, a propor a instauração de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) com o claro objetivo de intimidá-lo, em retaliação direta à sua atuação em defesa das populações mais vulnerabilizadas.
Ademais, esta semana, tornou-se público que a Arquidiocese de São Paulo, responsável pela gestão eclesiástica da Paróquia São Miguel Arcanjo, onde o padre atua, determinou a suspensão temporária de suas transmissões de missas e manifestações nas redes sociais. Tal medida afeta a muitos que se inspiram na luta do Padre Júlio Lancelotti, que é sinônimo de resistência e coragem ao denunciar as desigualdades estruturais, a violência institucional e os processos de higienização social que marcam as grandes cidades brasileiras.
Reafirmamos que Padre Júlio Lancellotti não está sozinho. Sua luta é coletiva, legítima, necessária e urgente.
A liberdade de expressão e os meios de comunicação que fortalecem a interação com a sociedade são componentes essenciais para a continuidade de ações que promovem inclusão, respeito à
diversidade e transformação social.
Garantir espaços de comunicação não significa interferir nas instâncias internas de instituições religiosas, mas sim assegurar que o trabalho legítimo e humanitário de agentes sociais e defensores de direitos possa alcançar as comunidades mais vulneráveis.
Reiteramos nosso profundo respeito pela autonomia da Cúria Metropolitana de São Paulo e pela Arquidiocese, bem como pela missão religiosa dos seus membros. Ao mesmo tempo, ressaltamos a importância de ambientes que favoreçam a expressão de vozes comprometidas com a promoção dos direitos humanos e voltadas ao acolhimento de pessoas em situação de vulnerabilidade social, princípios que encontram ressonância nos compromissos constitucionais do Estado brasileiro.
O Conselho Nacional dos Direitos Humanos reafirma sua disposição para dialogar com todas as instâncias envolvidas: instituições religiosas, organizações da sociedade civil, órgãos públicos e demais atores sociais, no sentido de fortalecer o respeito aos direitos humanos, a inclusão social e a garantia de condições dignas de vida para todas as pessoas, sem qualquer forma de silenciamento que comprometa seus direitos fundamentais.
CONSELHO NACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS