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“Com ou sem Ministério, haverá ataque aos direitos trabalhistas”, avalia Pomar

Historiador e dirigente do PT, Valter Pomar traça Análise de Conjuntura na sede da CUT/SE num formato interativo com participação de internautas

Publicado: 11 Dezembro, 2018 - 19h49 | Última modificação: 11 Dezembro, 2018 - 20h22

Escrito por: Iracema Corso

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Que a maioria dos brasileiros está desacreditada com o sistema político nacional, isso não é nenhuma novidade. Depois do golpe contra a primeira mulher eleita presidenta do Brasil, o que tivemos? Crescimento do desemprego; retorno do Brasil ao Mapa da Fome; Reforma Trabalhista destruindo direitos dos trabalhadores e entrega do Pré-Sal brasileiro para a exploração de empresas estrangeiras. Com a eleição do governo de extrema direita, segue aceso o risco da Reforma da Previdência para acabar com a aposentadoria de quem contribuiu a vida inteira com o sistema previdenciário.

Em meio ao contexto desolador, a Central Única dos Trabalhadores (CUT/SE) trouxe para Sergipe o historiador e dirigente do PT, Valter Pomar que na última sexta-feira, dia 7/12, no auditório da CUT/SE em Aracaju, provocou debate e apresentou mais informações para compreender melhor o cenário atual. “Numa análise de conjuntura como esta, a oportunidade que este intelectual nos deu foi a possibilidade de enxergarmos o cenário que estamos vivenciando de vários ângulos”, observou o presidente da CUT/SE, Rubens Marques, o professor Dudu.

O historiador Valter Pomar alertou que desacreditar no sistema político brasileiro não é solução para nada. “Se alguém não acredita na política, essa pessoa vai sofrer os efeitos da política do mesmo jeito. Não há como fugir da política. Ela afeta diretamente a vida de todos nós, de quem acredita na política e de quem não acredita”, destacou. “Com ou sem Ministério do Trabalho, por exemplo, haverá ataque aos direitos trabalhistas, o que afeta a todos nós”, completou.

Ao longo da Análise de Conjuntura, Valter Pomar respondeu a perguntas de internautas e lideranças sindicais, do movimento estudantil, do movimento social e de partidos políticos de esquerda que compareceram ao auditório da CUT/SE. CLICK Aqui para conferir a Transmissão Ao Vivo da palestra e debate.

Confira alguns dos temas discutidos:

 

Direita no Poder no Brasil

O motivo principal para a extrema direita chegar onde chegou foi o estímulo da classe dominante na direita tradicional. Quem pôs a extrema direita na rua para defender o impeachment de Dilma foram eles, os mesmos que investiram pesado na campanha do candidato de direita tradicional. Da mesma forma, quem colocou a direita no Poder foi quem protegeu Bolsonaro que devia ser preso por crime de racismo, mas o Supremo Tribunal Federal decidiu que se referir a um cidadão brasileiro afrodescendente usando a expressão ‘arroba’ era só uma coisa ‘desagradável’, não era crime de racismo. Com essa proteção, ao invés de ser punido por racismo, ele foi conduzido à Presidência pela classe dominante. Eles é que tem que assumir essa responsabilidade.

 

Perda do apoio da classe trabalhadora

No Brasil e em outros países como a França, por exemplo, a esquerda fez concessões ao neoliberalismo, adotou políticas que se distanciaram da classe trabalhadora, abrindo brechas para que um pedaço da classe trabalhadora ficasse desconfiada, não visse motivos para lutar ou, inclusive, mudasse de lado. Assim nós trabalhadores perdemos o apoio de parte da classe trabalhadora. No Brasil podemos citar como uma das razões a política monetária liberal, implantada por Levi em 2015, classificada assim pela própria presidenta Dilma durante reunião do Diretório Nacional do PT. Ela não concordava que a política dela fosse de conjunto neoliberal, mas reconhecia que a política monetária era neoliberal. Que bom que as pessoas dão nomes às coisas porque isso evita o problema de cometer um erro e não reconhecer como as coisas aconteceram. E na França, por exemplo, por que a direita cresceu? Porque o partido socialista fez um governo neoliberal. Isso fez com que parcela da classe trabalhadora não visse motivo para votar na esquerda, outra parcela da classe trabalhadora mudou de lado e aderiu ao programa da direita. No caso do Brasil, perdemos para o voto branco, não perdemos para a direita. Em proporção, no Brasil a direita não é um setor tão grande quanto este que se viu na Europa. O Partido dos Trabalhadores mesmo onde cometeu erros não gerou o estrago na mesma dimensão do que houve com a social democracia europeia que em alguns países, desapareceu. Mas a questão foi o voto. Quando a gente vai olhar no concreto, perdemos por 5 milhões de votos. A gente tem 200 milhões de habitantes, 140 milhões de eleitores. Então o que são 5 milhões de votos? Nós estamos falando de poucos porcentos, portanto cada fato, cada erro, cada mentira de campanha contribuiu para o resultado.

A extrema direita avança sobre a América

Este não é um fenômeno só brasileiro, é um fenômeno internacional que só vai ser derrotado em escala internacional. Aqui no Brasil e nos Estados Unidos termos dois presidentes de extrema direita que se apoiam é algo que exigirá da esquerda uma batalha não só nacional. O que isso tem de vínculo com o tema da política? Todo vínculo possível. O Bolsonaro é um quadro da política. Ele saiu das Forças Armadas sendo expulso, ainda que tenha negociado a sua saída e acabou se convertendo num político profissional na década de 90. Ele expressa a política tradicional, mas construiu um discurso anti política e anti sistema na campanha eleitoral. O sistema seriam todos os outros, o sistema seria o PT, e ele seria o anti sistema que não utiliza a mídia tradicional, mas as redes sociais. Alguém que fala com o povo, tem papo reto. Ele construiu essa imagem do anti mídia.

 

Ataques à Educação Pública no Brasil

Uma das maneiras de aumentar o público que compra matrículas em universidades privadas é restringindo o acesso às universidades públicas. Sabemos que houve um crescimento enorme no acesso as universidades públicas, em especial junto às camadas populares e, do ponto de vista não só político, mas empresarial e comercial, há interesse em reduzir este acesso. Paulo Guedes, inclusive, tem uma parente próxima que atua no mercado da educação, na educação privada, atua pesadamente, portanto ele tem interesses reais e privados de que isso aconteça.

 

Guerra comercial, China, EUA e Brasil

Os chineses não têm interesse nenhum de que uma guerra comercial prossiga, porque eles confiam que com a base produtiva que conseguiram montar, eles têm competitividade e só medidas artificiais impedirão com que eles penetrem com seus produtos em vários países como os Estados Unidos. Além disso, os chineses têm muito capital e não têm interesse de uma guerra que bloqueie a entrada de investimentos chineses em várias regiões dos Estados Unidos e Europa. Acredito que eles devem buscar algum acordo, pois mesmo que não seja o melhor acordo do mundo, eles contam que no médio prazo, a vitória será deles. Sem contar que o discurso que fazem é um discurso de coexistência pacífica, porque diferente da postura do Trump, de ganhar ou perder, a postura dos chineses é de que: um bom acordo é o melhor que pode haver... A margem de manobra dos chineses para fazer um acordo é exorbitante. A margem de manobra dos Estados Unidos é menor, porque o governo americano demorou para se dar conta do óbvio: a política neoliberal de transferência das indústrias dos Estados Unidos para países com a mão de obra mais barata e a conversão de 1% financeiro não era uma política inteligente no médio e longo prazo. Um país que tem a influência comercial que os Estados Unidos tem não pode começar a perder a capacidade industrial própria, é claro que isso não ia funcionar. Então os Estados Unidos tem uma margem de manobra menor, e a queda de braço nos EUA entre as diferentes facções da classe dominante está muito pesada. A oposição ao Trump é forte e não é só da esquerda, mas de parte da direita, de parte dos capitalistas e especialmente do Partido Democrático. Então para eles também será melhor um acordo. Sabemos que o Trump rosna alto, mas tem feito muitos acordos extremamente pragmáticos, com a Coréia do Norte, por exemplo. Estamos à beira de um holocausto nuclear por um acordo que não entendemos como foi possível. Faz parte da política de Trump subir muito o tom na negociação para depois sair com o que foi possível negociar. Qual o efeito disso para o Brasil? Eu não vejo jeito de isso ser bom para o Brasil em nenhum cenário. Só seria se o governo brasileiro tivesse uma política própria em relação aos chineses. Nós vivemos um processo de desindustrialização nos anos 90 que foi atenuado durante os governos do PT, mas não foi superado.

 

Concorrência entre partidos de esquerda

Acho que nós temos que nos preocupar com a ameaça que vem da direita. E essa ameaça que vem da direita só vai ser enfrentada com a gente buscando o caminho junto ao povo, junto à classe trabalhadora. Mesmo que a direita faça o que ela quiser no poder, o PT tem força suficiente para sobreviver em condições muito piores. Exceto se a gente se desvincular da classe trabalhadora. E se a gente não sustentar as nossas posições. O PT não pode abrir mão de defender os direitos da população negra, o direito das mulheres. Não podemos abrir mão disso. Não é preciso assumir um discurso identitário que seja sectário, mas não podemos abrir mão de defender aquilo que a gente acredita que faz parte também da defesa da democracia, dos direitos humanos, não podemos abrir mão do Lula nem da construção de uma sociedade democrática de verdade, do lado de lá eles não abrem mão das pautas deles. A direita defende o politicamente incorreto sem titubear, quando seu interesse está em jogo. Por isso não é aceitável que nós titubeamos na defesa da propriedade social, dos direitos dos trabalhadores, dos direitos sociais da classe trabalhadora, na necessidade em taxar grandes fortunas, não podemos abrir mão de defender que o capital financeiro tem que ser botado sob o grilho, o capital financeiro não pode mandar no País. É isso que eu acho que nós temos que aprender com essas eleições. Eles defendem o programa deles, e nós temos que defender o nosso.