Escrito por: Iracema Corso

Mito da neutralidade jornalística em debate no aniversário de 3 anos da Mangue

A jornalista e professora universitária Fabiana Moraes esteve em Sergipe na segunda-feira, dia 18 de maio, na sede do SINDIJUS, numa noite comemorativa aos 3 anos de aniversário da revista eletrônica Mangue Jornalismo.

A atividade contou com o apoio da Central Única dos Trabalhadores (CUT-SE) e reuniu jornalistas, estudantes, servidores públicos, sindicalistas, os vereadores Camilo Daniel (PT), Iran Barbosa (Psol) e Sônia Meire (Psol), a deputada estadual Linda Brasil (Psol) e leitores cativos da Mangue Jornalismo.

Fabiana Moraes começou sua palestra falando sobre a recente acusação que o senador Flávio Bolsonaro fez ao jornalista da Intercept Brasil afirmando que o profissional da comunicação não é um jornalista, mas sim um militante. A afirmação foi feita pelo senador com o intuito de desqualificar o profissional da comunicação sobre a justificativa de que ele ‘não é neutro’, que a informação que ele divulga não tem a credibilidade da informação apurada e checada nos moldes do jornalismo profissional.

Hector Souza (Mangue Jornalismo)             Anne Carol em show especial comemorativo aos 3 anos da Mangue


A partir deste acontecimento, Fabiana Moraes fez uma pergunta para o público: “é, a imprensa comercial, neutra?”, questionou. A jornalista mostrou uma foto do programa de jornalismo televisivo da TV Globo no qual foi exibido um ‘power point’ para explicar o esquema de desvio de dinheiro do Banco Master que está sendo investigado pela Polícia Federal. Na situação, foi exibida a estrela do PT junto aos nomes de vários criminosos envolvidos neste esquema de corrupção. Algo que não condiz com a realidade, pois Ciro Nogueira, Flávio Bolsonaro e outros nomes da política envolvidos diretamente nos esquemas com o banqueiro Daniel Vorcaro, ficaram isentos de acusação e exposição pública no programa de jornalismo da Globo.

O mito da neutralidade comercial, que é auto-afirmativo, é criticado pela professora que faz um passeio na linha do tempo da história brasileira para mostrar que a 'performance' da neutralidade jornalística não é de agora.

Já em 1850, a Lei de Terras – que impediu o acesso de populações negras à terra e à moradia – teve amplo apoio da imprensa. A professora exibiu manchetes de jornal mostrando que a imprensa comercial brasileira se posicionou contra o abolicionismo, contra o 13º salário na década de 1960, entre outros importantes momentos históricos.

“As tradicionais regras de imparcialidade jamais impediram o posicionamento favorável de importantes veículos de imprensa comercial sobre a Ditadura Militar brasileira, por exemplo. Essa é uma prática repetida na história, é circular, é engajada como uma militância”, afirmou Fabiana.

Para comentar o mandato presidencial de Jair Bolsonaro com todo o retrocesso democrático decorrente de sua atuação política, a professora observou:

“Nunca vou perdoar o silêncio da imprensa comercial tida como neutra, diante das agressões racistas, homofóbicas, machistas, contra os direitos humanos, contra os próprios jornalistas, e em elogio à tortura, barbaridades infinitas que se passaram sem uma avaliação crítica, mas no seu lugar um silêncio conivente”, criticou.

Fabiana falou sobre o posicionamento no jornalismo enquanto uma prática reflexiva, destacando a escolha de fonte como uma escolha política e a importância do uso de imagens fora do menu usual de visibilidades.

Após o debate com a professora Fabiana, o dirigente do SINDIJUS, Plínio Pugliesi parabenizou a Mangue pelo aniversário de três anos de existência e convidou todos para participar na próxima sexta-feira, dia 29 de maio, do lançamento do livro 'Teia Popular', escrito pelo publicitário Henrique Pereira. O lançamento será na sede do SINDIJUS. “A Mangue mostra que o jornalismo não acabou. A Mangue ensina as esquerdas que é possível fazer comunicação de qualidade”, afirmou Plínio.

Hector Souza                     Parte da equipe da Mangue Jornalismo

 

Repórter e um dos idealizadores da Mangue Jornalismo, o jornalista Cristian Góes comentou os três anos de trabalho jornalístico. “É uma enorme ousadia um grupo de comunicadores propor em Sergipe um outro jornalismo possível, isto é, profissional e radicalmente independente das forças políticas e econômicas do estado. E essa experiência já chegou aos três anos com muito sucesso e reconhecimento público”, disse.

“Entretanto, propor um jornalismo profissional, independente, corajoso, engajado não é uma tarefa fácil nem no Brasil e nem em Sergipe. Fazer essa opção custa muito caro e na Mangue os jornalistas são quase voluntários. Todo mundo tem acesso completo e livre ao nosso material investigativo, mas isso é resultado de muito trabalho e a sociedade precisa apoiar financeiramente a Mangue. Sem o apoio de verdade, a Mangue Jornalismo acaba e isso será um prejuízo para toda sociedade”, reforçou Cristian Góes.

Para festejar o aniversário de 3 anos da Mangue Jornalismo, o show musical com a cantora Anne Carol esticou a comemoração noite adentro com muita cultura sergipana.