Escrito por: Laisa Galdina

Werner Herzog e o Brasil

Cineastas, quando visitam países “cinematograficamente periféricos” (como o Brasil), costumam citar, sempre que instados pela imprensa, dois ou três filmes da região. E tais citações se fazem acompanhar de pedido de desculpas. Afinal – avisam -...

Cineastas, quando visitam pases cinematograficamente perifricos (como o Brasil), costumam citar, sempre que instados pela imprensa, dois ou trs filmes da regio. E tais citaes se fazem acompanhar de pedido de desculpas. Afinal avisam -- poucos filmes brasileiros circulam pela Europa (ou EUA). No caso de Werner Herzog, 68 anos, diretor dos clssicos Aguirre, a Clera dos Deuses, O Enigma de Kaspar Hauser, FitzCarraldo e Meu Inimigo ntimo tal no acontece. O Brasil, suas paisagens fsicas (em especial a Amaznia), seus cineastas e atores e at grandes nomes do futebol fazem parte das vivncias herzoguianas.

De passagem por So Paulo, para participar do III Congresso Internacional de Jornalismo Cultural, promovido pela revista Cult e pelo Sesc , Werner Herzog falou com carinho de Glauber Rocha e do Cinema Novo, de Grande Otelo e Jos Lewgoy (atores que ele dirigiu em seus filmes FitzCarraldo e/ou Cobra Verde), de Garrincha, alma alegre na tragdia, do filme Macunama e de seu diretor, Joaquim Pedro de Andrade.

Herzog conviveu com Glauber nos EUA, durante um ms, em 1975. A Joaquim Pedro, ele deve o subttulo de "O Enigma de Kaspar Hauser" (Cada Um Por Si e Deus Contra Todos). Cinco atores brasileiros estiveram com ele em dois de seus mais de 60 filmes. Ruy Guerra interpretou papel importante em Aguirre (o aventureiro Dom Pedro Ursua). Ruy Pollanah esteve em Aguirre e FitzCarraldo. O cantor Milton Nascimento tambm atuou em FitzCarraldo. Este pico teve a Amaznia peruana e brasileira como cenrio. Em Manaus, Herzog filmou no centenrio Theatro Amazonas, tendo Claudia Cardinale e Klaus Kinski comandando grande figurao. Para completar, em breve assistiremos a belo e comovido depoimento do prprio Herzog ao filme "Eu, Eu, Eu", documentrio que o paulista Cludio Kahns dedicou ao mais internacional dos gachos, Jos Lewgoy.

Abaixo, trechos da conversa que Werner Herzog manteve, no Sesc Vila Mariana, com centenas de participantes do III Seminrio Internacional de Jornalismo Cultural.

verdade que voc deu a O Enigma de Kaspar Hauser (1972) o subttulo de Cada Um Por Si e Deus Contra Todos por causa do filme Macunama (1969), de Joaquim Pedro de Andrade?

Werner Herzog - Sim. Eu escrevi o roteiro do filme em quatro ou cinco dias e no havia um ttulo. Cansado de tanto escrever, resolvi sair para tomar uma cerveja e ver um filme. Acabei vendo Macunama, do Joaquim Pedro. Fiquei louco pelo Grande Otelo e mais louco ainda por uma frase que ouvi num certo ponto do filme: Cada um Por Si e Deus Contra Todos. Congelei na cadeira. Isto que acabei de ouvir to lindo que no consigo acreditar. A est o ttulo do meu filme. S que, depois, trocando ideias com vrias pessoas, ningum guardava a frase. Quando eu pedia para que a repetissem, diziam Cada um Por Deus, Todos pelo Homem. Ou Cada Homem por Deus. Nunca acertavam. Ento acabei optando por O Enigma de Kaspar Hauser Cada Um Por si e Deus Contra Todos. Mas, to importante quanto o subttulo foi a descoberta de Grande Otelo. Que ator maravilhoso. Nove anos depois eu estava com ele na Amaznia, filmando FitzCarraldo. Tomei estas duas riquezas de Macunama. No tenho vergonha de assumir, como um pirata, esta troca.

E Glauber Rocha? Voc conhece os filmes dele?

Conheo muitos dos filmes dele e tive o prazer de conviver com ele, durante um ms , em Berkeley, na Califrnia . ramos cineastas-convidados da Pacific Film Archive, uma cinemateca muito importante. Como eu no tinha hotel para me hospedar em San Francisco, a Cinemateca do Pacific me ofereceu um quarto ao lado do de Glauber. Me lembro que, em 1975, quando chegou a hora de Glauber, que era bastante desorganizado, regressar ao Brasil, a sada dele nos impressionou a todos, pois tinha milhares de papis que no cabiam nas malas e iam se espalhando por todos os lados. Glauber morreu jovem, mas os filmes dele so eternos. Para mim, ele alma do Brasil, assim como Garrincha. Glauber a alma intelectual e visionria e Garrincha a alma alegre na tragdia deste pas.

Voc, que escalou dois moambicanos-brasileiros para o elenco de Aguirre (Ruy Guerra e Ruy Pollanah) e filmou FitzCarraldo, com Lewgoy, Grande Otelo e Milton Nascimento, conhece o cinema brasileiro contemporneo?

No costumo mais ver muitos filmes. S uns dois ou trs por ano. Ano passado, vi vinte longas-metragens, porque integrei o juri do Festival de Berlim. Como jurado, fui obrigado a ver todos os concorrentes (risos). De filmes brasileiros recentes, vi um de Walter Salles. Creio que, graas s facilidades das novas tecnologias, uma nova gerao est se firmando no Brasil. Quando comecei, filmar era muito complicado. As cmeras eram inacessveis, o celuloide caro e os laboratrios carssimos. Hoje, os que querem fazer cinema podem recorrer a ferramentas simples, cmeras digitais muito baratas, pode editar o material no lap-top. possvel fazer um filme com 10 mil dlares. O importante querer trabalhar e faz-lo onde h vida pulsando. E h que andar a p. Andar muito. Este conselho que lhes dou. Eu abri o cadeado (de uma sala da Universidade de Munique) e roubei a cmera. Com ela fiz meus onze primeiros filmes. Ento, s posso lhes ensinar a assaltar e a falsificar documentos. Quando estava na Amaznia peruana e tinha que subir com o navio rio acima, indo atrs num barco a motor, deparei-me vrias vezes com acampamentos militares. Eles sempre tentavam me impedir de trabalhar. Um coronel, que guardava a selva com seus soldados, mandou que atirassem em mim. Exigiu que eu apresentasse licenas de filmagem. Sabe o que eu fiz? Regressei a Lima e falsifiquei documentos. Forjei papeis que, em nome da Chancelaria, da Secretaria de Estado e do presidente Belaunde me autorizavam a filmar. Copiei as assinaturas deles com muito zelo e enchi os documentos de carimbos. Nos papeis, havia frase em alemo que dizia mais ou menos assim: quem quiser comprar uma cmera.... Os que me paravam, ao me ver de volta, olhavam aquelas assinaturas, aqueles carimbos e aqueles escritos, inclusive em alemo, e diziam pode passar.

Sua relao com [o ator alemo] Klaus Kinski (1926-1991) foi muito tumultuada e mesmo assim, voc o dirigiu em vrios filmes...

Minha relao com Kinski, como mostro no documentrio Meu Inimigo ntimo foi intensa, mas fiz mais de 60 filmes, e ele est em apenas cinco deles. Havia vida, para ele e para mim, antes, durante e depois destes cinco filmes. Ele atuou em 210 produes. Portanto, esteve separado profissionalmente de mim em 205 filmes. Mas no posso negar que nossa relao foi muito forte. Eu sempre soube que ele era extraordinrio e que trabalhar com ele era como domesticar uma fera selvagem. Era preciso fazer a agressividade dele ser produtiva na tela. Kinski tinha momentos de muita coragem e carinho. Nas sequncias do navio rio acima, em FitzCarraldo, perigosssimas, ele quis correr todos os riscos, desde que eu estivesse perto dele. Se o navio afundasse, afundaramos juntos. Para outras coisas ele era covarde. Tivemos confrontos perigosos. A imprensa chegou a dizer que eu s no atirei nele, porque ele deu um passo atrs. Isto no verdade. Nunca o ameacei com arma de fogo. Mas brigamos muito. Nossa relao foi para um terreno perigoso. Ele tinha oscilaes que iam do amor ao dio, gritava com os extras. Os ndios peruanos que trabalharam conosco em FitzCarraldo no tinham medo dele e at me disseram que, se eu quisesse, eles o matavam para mim. Como eu ficava calado, eles me disseram que no tinham medo de Kinski, que era um gritador. Temiam mais o meu silncio.

Mas ele foi o maior ator de seus filmes, no?

Ele foi um grande ator, mas o maior de todos, para mim, foi um no-ator, Bruno S., com quem fiz O Enigma de Kaspar Hauser e Stroszek. Que grande presena em cena tinha Bruno S. Ele me tocou mais que qualquer outro. Morreu h alguns meses, estou de luto pela perda dele. Dirigi, mais recentemente, grandes atores como Christian Bale (O Sobrevivente) e Nicolas Cage (Vcio Frentico). Mas tenho que incluir Kinski e sua insanidade entre os melhores. Tenho conscincia de que, sem bons atores, no se faz filme narrativo. Aprendemos com eles e tambm andando a p de Boston Guatemala, sendo encarcerado numa priso da Repblica Centro-Africana, como eu fui. H que se aprender a conhecer o corao do ser humano. E h que se ler muito, mas muito mesmo.

Como voc v a relao da crtica cinematogrfica com seus filmes?

A crtica em geral decaiu muito. O discurso inteligente sobre os filmes foi abolido em favor das celebridades. Nos EUA quase no h mais crticos. Em compensao, multiplicam-se os reprteres de celebridades. Na Frana, por outro lado, ainda h muitos crticos, mas eles so muito intelectuais, esotricos. Tenho estima pelos franceses, mas confesso que falar com eles muito problemtico para mim. Tenho me dedicado muito escrita. Penso at que meus textos vo viver mais longamente que meus filmes. Ultimamente me exercitei at como ator (risos). Sim, interpretei um cientista-farmacutico alemo em 0s Simpsons. Minha funo era criar plulas capazes de curar o mau-humor de Homer Simpson.

Voc tem produzido muito, mas nem todos os seus filmes tm chegado ao Brasil. Por qu?

Este ano fiz quatro ou cinco filmes nos EUA, com produtores norte-americanos. Esta realidade tem um lado positivo. Ao invs de me ocupar em levantar fundos ou armar contratos com redes de TV, eu filmo. Estou, neste momento, realizando cinco novos filmes. Por isto passo com tamanha rapidez pelo Brasil. Mas h um lado negativo nesta situao. Meus filmes tornaram-se muito mal distribudos no mundo. Os produtores americanos se preocupam com o mercado nos EUA e Canad. Por isto, meu propsito, agora, ficar com 50% dos meus filmes, ou seja, com a carreira deles nos mercados fora EUA-Canad. Estou fazendo assim com o novo documentrio que finalizo no Texas e na Flrida (Corredor da Morte) que tem condenados pena capital como tema. Sou, como alemo, contra a pena de morte. No por razes ou argumentos tericos, mas sim pela experincia de ter nascido num pas que, durante o Nazismo, matou milhares de pessoas, um verdadeiro programa de eustansia. Nenhum pas pode ser habilitado a matar pessoas.

Voc devotou imensa amizade grande crtica e historiadora alem, Lotte Eisner (1896-1983), autora de um clssico sobre o Expressionismo Alemo (A Tela Demonaca). At dedicou a ela um livro, Caminhado no Gelo, dirio de sua viagem, a p, de Munique a Paris. Um sacrifcio pela recuperao dela.

Lotte foi muito importante para as novas geraes de cineastas do Ps-Guerra. Ela, que teve que se refugiar na Frana, quando Hitler assumiu o poder, reconheceu que depois da grande barbrie, novas geraes de msicos, escritores e cineastas alemes se firmavam. Quando eu tinha 22 anos, ela mandou um filme meu para Fritz Lang [cineasta do expressionismo alemo] e me ajudou muito. Por isto, me dispus, sempre, a fazer todo e qualquer sacrifcio por ela. Fui a p de Munique at Paris, ao encontro dela. Quando cheguei, ela, que mentia a idade desde que fizera 70 anos, tinha quase 80. Ela sabia que fora para mim e para as novas geraes uma grande fonte de inspirao. Quando, novamente, fui ao encontro dela em Paris, ela estava cega e se aproximava dos 90 anos. No podia mais ler, nem ver filmes, duas de suas maiores paixes. Nem podia caminhar. Lotte me disse que no podia nem morrer, pois eu a enfeitiara para que vivesse para sempre. Retirei, ento, o feitio. Dez dias depois, aps um golinho de ch, ela morreu.Assista FitzcarraldoFonte: Maria do Rosrio Caetano de So Paulo (SP) - Rede Brasil Atual