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ENTREVISTA: Professor Dudu avalia luta sindical ao deixar a presidência da CUT/SE

Publicado: 29 Novembro, 2019 - 15h02 | Última modificação: 29 Novembro, 2019 - 15h08

Escrito por: Iracema Corso

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Na noite desta sexta-feira, dia 29/11, tem início o 14º CECUT (Congresso Estadual da Central Única dos Trabalhadores) que vai eleger a nova direção da CUT/SE e aprovar a estratégia de luta sindical para os próximos anos (acesse o link e confira a matéria).

No 14º CECUT, o incansável militante sindical, Rubens Marques, mais conhecido em Sergipe como ‘professor Dudu’, deixa a presidência da Central Única dos Trabalhadores (CUT/SE) após uma década de dedicação à luta sindical. Muitos dos amigos sindicalistas o definem como ‘uma escola’. Outros tantos expressam gratidão pelo apoio na luta sindical e destacam a importância do papel que desempenhou em Sergipe desde 2009, vencendo também muitas dificuldades, como o tempo reduzido para a vida pessoal e o afastamento do convívio familiar.

O professor Dudu deixa a presidência da CUT/SE, mas, como diz a música de Edson Gomes “A vida não para aqui// A luta não acabou/ E nem acabará/ Só quando a liberdade raiar”... Nesta entrevista com ele, tem pontadas de retrospectiva, avaliação geral da realidade atual e perspectivas de futuro da luta sindical no Brasil, América Latina e em Sergipe. Confira!

Quais os principais desafios que a CUT enfrentou em Sergipe neste último mandato?

Desde a Ditadura Militar de 1964, principalmente a CUT – por ser a maior central sindical do Brasil – nunca passou por tantas dificuldades e desafios. Pela primeira vez na história do Brasil, um presidente da República tem a Central Única dos Trabalhadores como alvo. Ele verbaliza o nome da CUT como inimiga e tem uma conduta de perseguição aos sindicatos. Bolsonaro foi capaz de extinguir o Ministério do Trabalho, órgão que dialogava diretamente com a classe trabalhadora, para afetar a organização dos trabalhadores. Em outros governos a gente brigava para ampliar direitos, mesmo na Ditadura. Neste último mandato da CUT fizemos luta e resistência contra os ataques aos direitos dos trabalhadores. É o governo que mais atacou e continua atacando os direitos dos trabalhadores. Só o fato de conseguirmos resistir a todos estes ataques e sobreviver já foi uma grande vitória.

Diante destes desafios, como a CUT se posicionou?

A CUT cumpriu um papel fundamental quando buscou unidade com os diferentes. A CUT atingiu um grau de maturidade para passar às outras centrais que era momento de pautar o que unifica e não o que nos separa. Historicamente as centrais não conseguiam avançar no diálogo visando a unidade porque a pauta sempre eram as divergências. E agora, não só os sindicatos como as centrais entenderam que o momento é de unidade. Não dá para ser irresponsável e focar na futrica ou na divergência ideológica quando o movimento sindical sofre duro ataque. Primeiro precisamos nos unir para nos salvar, pois mortos e destruídos não faremos nada. O segundo passo é lutar e resistir para mais à frente, quando criarmos mais musculatura, conseguirmos resgatar o que nos foi retirado.

Você destaca alguma pauta importante de luta neste último mandato?

A greve sempre está no centro do debate. É papel do movimento sindical fazer enfrentamento, dialogar e, na ausência do diálogo, a greve é nossa grande ferramenta de luta. Quando faltou o debate, a CUT esteve na vanguarda para conseguir unificar as diferentes forças. Então, eu destacaria a construção das greves gerais. Havia duas décadas que as centrais sindicais não conseguiam fazer greve geral. Havia um temor de que as greves pudessem fracassar e isso prejudicasse mais ainda a organização dos trabalhadores. Depois de uma derrota, o que vem em seguida é um refluxo.

Greve para nós não é uma passeata, é parar o setor produtivo, o setor privado, o setor público, é mexer no coração do capitalismo, e nem no interior da CUT, na sua direção, não era unânime a ideia de que a gente tinha que parar o setor produtivo. Discutimos o que a CUT queria fazer. Era greve mesmo? Então não foi unânime. Havia temor por conta da repressão, por conta de tanto tempo sem exercitar essa ferramenta importante que era a greve geral. Mas nós conseguimos convencer, as greves aconteceram. Fábricas, ônibus, banco, comércio e o setor público pararam, tivemos trancamento de avenidas em Aracaju e no interior. Foi um movimento vitorioso que abriu portas para grandes manifestações de massa. A partir dessa, vieram outras.

O único reparo que eu faço dessas greves, apesar de vitoriosas, é que a gente não conseguiu conquistar corações e mentes daqueles que não estão minimamente organizados em um sindicato, associação, movimento estudantil, movimentos sociais e culturais.

A gente acaba de ter a noticia ruim de que o Centro Administrativo da Petrobrás vai sair de Aracaju. Como a CUT vê mais essa ação nefasta do governo Bolsonaro que atinge a economia de Sergipe num contexto de ataque ao Nordeste?

Eu ainda não compreendo essa luta como vencida. Até o próximo ano, aqui em Aracaju, vai ter luta e vai ter resistência contra a saída da Petrobras. Quando a pauta de luta é federal, é preciso que haja muita união, atos e manifestações em todos os estados. Para vencer esta luta aqui, vamos depender de muita articulação política e muita mobilização. Eu só acredito que as atividades da Petrobrás serão encerradas em Sergipe quando isso acontecer. Até lá, o meu papel é acreditar na luta e na articulação política da CUT para manter a Petrobras aqui no Nordeste e em Sergipe, algo muito importante para a economia do nosso estado.

No Congresso Nacional da CUT (out/2019), a delegação de Sergipe pautou a luta pela continuidade da Petrobras no Nordeste, pois está claro que Bolsonaro ataca o Nordeste em um dos pilares de seu desenvolvimento ao retirar a Petrobrás da região. A partir de agora como você acredita que vai se desenhar o caminho da luta?

A CUT está dialogando com os governadores do Nordeste, até porque existe um consórcio. Então essa retirada das instalações da Petrobrás aqui em Sergipe, por exemplo, é uma reação ao consórcio. Parte dele é formada por governadores do PT. Então o Brasil vive uma coisa louca, um presidente destrambelhado que não consegue enxergar nada e só prejudica e ataca o próprio Brasil. Eu não entendo como a classe trabalhadora está tendo tanta paciência, isso me incomoda. Não foi por falta de mobilização. Não foi por falta de alerta que esses ataques estão acontecendo. Então a gente olha pra Argentina e sente inveja positiva...

América Latina

Na Argentina, a direita derrotou o peronismo, mas a classe trabalhadora ficou vigilante. O tempo inteiro na rua, o tempo inteiro cobrando. O que é que acontece, quatro anos depois? O peronismo volta no campo progressista derrota o projeto neoliberal de Maurício Macri que estava em curso. A gente perdeu o Chile, lá também Michele Barchelet uma candidata de centro esquerda foi derrotada, então assumiu Sebastian Piñera, um grande empresário. O que acontece com o Chile? Convulsão social, luta sem parar.  A classe trabalhadora sente na pele e reage. Estamos vendo na Bolívia um golpe de estado e agora começaram as batalhas campais. Aqui no Brasil me incomoda, já tentei encontrar um sociólogo, um pesquisador que diga o que é que tá acontecendo no Brasil, pois o trator tá passando por cima das pessoas e as pessoas sequer saem da frente. Tem muita luta do movimento sindical, do movimento social, mas a massa mesmo, a população como um todo não tá reagindo e isso me incomoda muito. 

A carteira verde e amarela proposta por Bolsonaro significa uma nova reforma trabalhista e nova reforma da previdência, atingindo direitos e gerando consequências nefastas para os trabalhadores e trabalhadoras brasileiras. Esta nova ofensiva pode impulsionar uma nova greve geral?

Antes de entrar neste ponto, eu quero dizer o seguinte: o que pode mudar o Brasil hoje é o fato de Lula estar solto. Não é uma certeza, é uma possibilidade. Ele consegue dialogar melhor com a classe trabalhadora, o movimento sindical, ele pode ser este elo para acender a chama e o povo se revoltar contra a tirania deste governo. Lula pode ser muito positivo neste sentido de tentar organizar as massas, como ex-presidente eu não sei se está no horizonte dele cumprir este papel de agitação e propaganda das massas como pregou a Rosa Luxemburgo. Só o fato de Lula estar solto já é animador. Ele já começou a viajar, a juntar gente, e ele é um fenômeno, onde passa arrasta multidões. Penso que Lula deve cumprir este papel de ser o fermento para que a massa possa ganhar força e partir para cima da direita.

Carteira Verde e Amarela

Sobre a carteira verde e amarela, isso é uma tragédia. Ela impacta na Previdência, por exemplo. Se não tem contribuição, vai esvaziar o fundo previdenciário. É uma semi-escravidão. É uma pena que a classe trabalhadora tenha que virar cinza para ressurgir como uma ‘fênix’. Vou repetir: o exemplo da Venezuela, Argentina, Chile e Bolívia pode ser absorvido pela classe trabalhadora brasileira. É uma pena que a reação não seja à altura do que se merece.

Quando você assumiu a CUT, qual era sua principal preocupação?

Era conseguir fazer com que a CUT continuasse crescendo sem abrir mão de seus princípios. Eu gostaria de destacar: se tem alguma coisa que ninguém pode falar sobre a CUT Sergipe é da autonomia. Na CUT quem manda é os trabalhadores. Já houve tentativa de fazer da CUT correia de transmissão para outros partidos políticos, mas nós não deixamos. Pra você ter uma ideia, desde o tempo em que eu tô aqui na CUT, nenhum governador veio fazer comício, porque na verdade não vem em tempo nenhum e quando chega a eleição não dá pra querer visitar a CUT, apresentar a plataforma, nem governador, nem senador, nem deputado, nem ninguém. No nosso mandato, o espaço continua sendo da classe trabalhadora, mantivemos nossa autonomia. E quando foi para criticar, criticamos. Inclusive criticamos o governo Marcelo Déda que na juventude chegou a ser advogado da CUT. Nem no governo dele, a CUT perdeu a sua independência. Pelo contrário, a CUT fez uma disputa clara e aberta para mostrar que entre o governo e a classe trabalhadora, nós estamos com a classe trabalhadora sempre e vamos terminar o mandato desta forma com autonomia para cobrar. O nosso papel é esse, não é outro. Autonomia não se negocia.

A mídia hegemônica, como um braço importante para a expressão do poder constituído, sempre tem uma relação de conflito com o movimento sindical. Desde o início de sua gestão até o momento, como foi a relação com a mídia?

Olhe, levando-se em consideração o papel que a grande mídia cumpre, eu não tenho muito do que reclamar. Reclamar muito da mídia é mostrar certa ingenuidade. É achar que a mídia existe para democratizar informação e não é assim. Por saber disso, a gente sofre menos. É ruim quando a gente espera outra coisa. O papel da mídia historicamente no Brasil sempre foi este. A grande mídia nacional é golpista, foi e continua sendo. Por isso eu acho que aqui em Sergipe o que tivemos foi uma relação boa, respeitável e de amizade com a maioria dos repórteres. O negócio da mídia é a edição, ali é que acontecem os problemas, mas mesmo na edição, foram poucas ocasiões conflituosas. Até porque o repórter que nos entrevistava já me conhecia, sabia o que eu penso e o que eu digo. Sou incapaz de fazer uma fala mais moderada para conseguir emplacar um espaço na mídia. Sou direto, objetivo, faço a crítica contundente e foram poucas as vezes que a fala foi distorcida ou não foi colocada no ar.

Ao longo deste percurso, você conquistou grandes laços de amizades e também inimigos?

Na mídia, não lembro de nenhum opositor ferrenho. Meus opositores estão no Judiciário. Lá, qualquer ação minha gera processo. Não foram poucas as vezes que tive que ir a audiências e ainda estou respondendo a alguns processos por conta do exercício como presidente da CUT. Foram 6 processos judiciais. Agora desafetos eu não construí nenhum, mas tenho certeza que tenho, também na própria central sindical é possível, isso não me abala porque a CUT não é nenhuma irmandade de igreja, é uma organização de trabalhadores com posições diferentes às vezes, mas a vida segue. Pior seria se eu tivesse desafetos por ter sido pelego, por ter destoado dos princípios da CUT. Mas se criei desafetos por ter sido firme, duro na defesa das convicções, se neste caminho eu construí alguns desafetos, isso não vai tirar meu sono.

Qual é a CUT que neste momento você está deixando para o próximo presidente que vai assumir vencendo as eleições no Congresso Estadual?

A CUT nos últimos anos fez o dever de casa. É bom lembrar que sempre foi uma central respeitada não só pelo meu mandato, mas desde sua fundação e sempre teve uma pegada muito forte pela esquerda. Eu fui vice de Antônio Góis, urbanitário da Deso. Aprendi muito com ele e de vez em quando ainda tenho ligado para pedir orientação. A minha primeira preocupação como presidente era manter a CUT respeitada, proativa, que protagonizasse as lutas em Sergipe, não por se achar melhor que ninguém, do que outras centrais, mas pela responsabilidade de sermos maiores, abrigando o maior número de sindicatos filiados. E nós conseguimos. A CUT que a gente deixa para a próxima gestão aprendeu a construir a unidade respeitando as diferenças. É uma CUT que sabe ser maioria sem ser arrogante. Este é o maior problema, tanto é que a gente consegue dialogar com centrais com menor número de sindicatos filiados, mas o tratamento é o mesmo. A gente reconhece a importância delas. A CUT sozinha, por exemplo, não teria conseguido sucesso na greve geral. Só teve sucesso porque teve a CTB, UGT, a CSP Com Lutas dividindo tarefas. Cada um na sua trincheira. Então o grande legado que a nossa gestão deixa é de uma CUT respeitada, um canal aberto pra dialogar com o movimento sindical, mas também com o movimento social, como o MST, o movimento de moradia e tantos outros movimentos sociais de Sergipe.